Onde você se refaz quando o tratamento oncológico parece ocupar todos os espaços da sua vida? Entre consultas, exames, medicamentos, efeitos colaterais e incertezas, é compreensível que alguns dias se transformem simplesmente em uma tentativa de chegar ao fim do dia.
Durante o tratamento do câncer, emoções podem mudar de um dia para outro — e até ao longo de um mesmo dia. Medo, esperança, irritação, cansaço e confiança podem coexistir. O National Cancer Institute (NCI) reconhece que cada pessoa encontra maneiras diferentes de enfrentar esse período e que manter vínculos, atividades significativas, apoio e esperança pode fazer parte desse processo.
Por isso, talvez exista uma pergunta que valha a pena fazer de tempos em tempos: o que sustenta você enquanto atravessa tudo isso?
Quando a vida vira tratamento
Há momentos em que o câncer parece ocupar o centro de tudo.
A agenda passa a ser determinada por consultas. O calendário se organiza entre exames e ciclos de tratamento. Além disso, o corpo pode exigir descanso justamente quando a pessoa gostaria de continuar sua rotina.
Aos poucos, existe o risco de uma palavra enorme — câncer — esconder todas as outras palavras que compõem aquela pessoa: mãe, pai, filho, avó, profissional, amigo, companheiro, viajante, cozinheiro, leitor, apaixonado por música, dono de sonhos.
No entanto, você continua sendo muito mais do que alguém em tratamento.
O NCI destaca que pessoas com câncer podem continuar encontrando significado e importância na própria vida e que atividades, relações e valores pessoais fazem parte da adaptação à doença.
Qual é o seu “para quê”?
Talvez você não encontre uma grande resposta filosófica. E não precisa.
O seu “para quê” pode ser muito concreto.
Pode ser querer ver um filho se formar. Talvez seja acompanhar o crescimento de um neto. Pode ser voltar para casa, cuidar do jardim, reencontrar os amigos, terminar um projeto, viajar para um lugar especial ou estar presente em uma data importante.
Ou pode ser simplesmente pensar:
“Ainda existem dias que eu quero viver.”
O NCI observa que algumas pessoas encontram esperança planejando acontecimentos pelos quais desejam esperar, permanecendo próximas de quem importa e identificando pequenas coisas da vida que ainda proporcionam prazer e significado.
Portanto, propósito não precisa significar algo grandioso. Às vezes, aquilo que nos sustenta cabe em uma fotografia, numa conversa ou numa cadeira vazia à mesa que ainda queremos ocupar muitas vezes.
O que sustenta você pode mudar
Existe outra coisa importante: a resposta não precisa permanecer igual durante todo o tratamento.
No início, talvez o principal desejo seja simplesmente receber uma boa resposta aos medicamentos. Depois, pode surgir vontade de recuperar a autonomia. Mais adiante, talvez aquilo que mais importe seja estar perto da família ou retomar algum projeto.
Isso acontece porque o câncer também pode provocar uma revisão de valores e prioridades. O NCI explica que algumas pessoas passam a olhar de outra maneira para aquilo que realmente importa, dedicando mais tempo às relações, à espiritualidade, à natureza ou a atividades que fazem sentido para elas.
Assim, não procure uma frase perfeita. Pergunte-se apenas o que importa para você hoje.
Amanhã a resposta pode ser outra.
Nem sempre você vai se sentir motivado
Este talvez seja o ponto mais importante deste texto.
Encontrar um motivo para continuar não significa sentir-se forte todos os dias.
Há dias em que você pode estar cansado do tratamento. Outros em que ficará irritado, desanimado ou simplesmente sem vontade de conversar. O câncer pode despertar emoções intensas, e não existe uma única maneira “correta” de reagir.
Por isso, cuidado com a ideia de que basta ter pensamento positivo.
Você não precisa transformar esperança em obrigação.
O tratamento não funciona porque alguém foi suficientemente otimista, e ter um dia ruim não significa que você esteja “desistindo”. Esperança pode conviver com medo, tristeza e cansaço.
Às vezes, sustentar-se significa justamente reconhecer:
“Hoje está difícil.”
E permitir que alguém caminhe um pouco ao seu lado.
Onde você se refaz?
Talvez esta pergunta seja tão importante quanto descobrir o que sustenta você.
Onde você recupera um pouco de si mesmo?
Pode ser em muitos lugares e experiências:
- em uma conversa com alguém que escuta sem tentar dar respostas;
- na oração ou na espiritualidade;
- durante alguns minutos de meditação;
- perto da família;
- entre pessoas que passaram por experiências semelhantes;
- ouvindo música;
- caminhando na natureza, quando possível;
- escrevendo sobre o que está sentindo;
- fazendo algo que continua lembrando quem você é;
- simplesmente permanecendo em silêncio.
Para algumas pessoas, espiritualidade e fé oferecem sentido e conexão; para outras, esse significado aparece nas relações, na natureza, na escrita, na meditação ou em atividades pessoais. O NCI ressalta justamente que espiritualidade pode estar relacionada a propósito, paz, valores e conexão, com ou sem uma religião específica.
Além disso, apoio psicossocial pode contemplar necessidades emocionais, sociais e espirituais, por meio de aconselhamento, grupos de apoio, educação e outras formas de acompanhamento.
Guarde pequenas razões para os dias difíceis
Nos dias bons, experimente registrar aquilo que faz você querer continuar vivendo sua vida.
Não precisa escrever uma lista enorme.
Uma frase pode bastar:
“Quero tomar café na varanda da minha casa novamente.”
“Quero estar no aniversário da minha neta.”
“Ainda quero conhecer aquele lugar.”
“Quero voltar a dirigir.”
“Quero ter mais tardes ao lado de quem amo.”
Depois, nos dias em que o tratamento parecer maior do que tudo, essas lembranças podem ajudar a reconectar você com algo além da doença.
O NCI inclusive sugere que pessoas com câncer procurem razões pessoais para esperança e, se isso ajudar, escrevam essas razões ou conversem sobre elas.
Não se trata de ignorar a realidade. Trata-se de lembrar que existe uma vida acontecendo além dos exames.
Você também pode se sustentar nos outros
Nem sempre encontramos dentro de nós toda a força de que precisamos.
E isso não é fracasso.
Família, amigos, profissionais de saúde, psicólogos, grupos de apoio e comunidades espirituais podem formar uma rede importante durante o tratamento. Segundo o NCI, grupos de apoio podem oferecer espaço para falar sobre sentimentos, compartilhar experiências e lidar com dificuldades práticas e emocionais relacionadas ao câncer.
Às vezes, portanto, a resposta para “o que me sustenta?” não é uma coisa.
É uma pessoa.
Ou várias.
Ainda existe vida além do tratamento
Talvez o câncer tenha mudado muita coisa. Entretanto, enquanto o tratamento cuida da doença, também existe uma vida pedindo para continuar sendo vivida.
Pode haver sonhos que precisem ser adaptados. Planos podem mudar. O corpo pode exigir outro ritmo. Ainda assim, aquilo que dá significado à sua existência não precisa desaparecer.
Onde você se refaz? O que ainda faz seus olhos procurarem o amanhã? Quem você deseja abraçar novamente? O que ainda gostaria de viver?
Não existe resposta certa.
Existe a sua.
E, nos dias em que você não conseguir encontrá-la sozinho, permita que alguém ajude você a procurá-la.
No CAPO Bezerra de Menezes, o acolhimento parte justamente da compreensão de que a pessoa com câncer não é apenas um diagnóstico. Corpo, emoções, vínculos e espiritualidade também precisam de espaço durante esse caminho. Hoje, faça uma pergunta a si mesmo: “O que me sustenta?” Se encontrar uma resposta, por menor que seja, guarde-a. Talvez ela seja exatamente aquilo de que você precisará lembrar em um dia difícil.
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