Você começa uma frase e a palavra simplesmente desaparece. Entra em um cômodo e esquece o que foi buscar. Precisa reler uma mensagem várias vezes para entender. Para algumas pessoas durante ou depois do tratamento do câncer, essas situações tornam-se mais frequentes. Esse conjunto de alterações é conhecido popularmente como chemo brain.
Apesar do nome, o chemo brain não significa que o cérebro esteja “falhando” nem acontece exclusivamente por causa da quimioterapia. O termo descreve alterações de memória, concentração, atenção e velocidade de raciocínio relacionadas ao câncer e ao seu tratamento. O National Cancer Institute (NCI) utiliza também a expressão comprometimento cognitivo relacionado ao câncer.
Para quem vive isso, entretanto, a sensação pode ser desconcertante: “Minha cabeça não funciona mais como antes.” Neste artigo, você vai entender por que isso acontece, quais são os sinais mais comuns e, principalmente, o que pode ajudar no dia a dia.
O que é chemo brain?
Chemo brain, também chamado de “névoa mental”, é um termo usado para descrever mudanças na maneira de pensar, memorizar, aprender, planejar ou manter a atenção que podem ocorrer antes, durante ou depois do tratamento do câncer.
Portanto, apesar de “chemo” fazer parte do nome, a quimioterapia não é a única possível causa.
Algumas pessoas apresentam alterações muito discretas. Outras, porém, percebem um impacto maior nas tarefas cotidianas, no trabalho, nos estudos ou até mesmo durante uma conversa.
O NCI explica que as áreas mais frequentemente envolvidas incluem memória, concentração, velocidade de processamento das informações e funções executivas, como organizar, planejar e tomar decisões.
Como saber se estou com chemo brain?
Uma das características dessa alteração é que ela nem sempre é percebida pelas pessoas ao redor. Entretanto, quem está passando por ela normalmente percebe que alguma coisa mudou.
Entre as dificuldades relatadas estão:
- esquecer nomes, datas ou compromissos;
- perder objetos com maior frequência;
- procurar uma palavra conhecida e não conseguir encontrá-la;
- perder o fio de uma conversa;
- precisar reler uma informação;
- ter dificuldade para se concentrar por muito tempo;
- sentir que os pensamentos estão mais lentos;
- ter dificuldade para fazer duas coisas ao mesmo tempo;
- demorar mais para organizar tarefas;
- encontrar maior dificuldade para aprender informações novas.
Essas manifestações estão entre as alterações cognitivas descritas pela American Cancer Society e pelo National Cancer Institute.
Para algumas pessoas, isso provoca insegurança. Afinal, atividades que antes pareciam automáticas passam a exigir mais esforço.
Chemo brain não acontece só na quimioterapia
Esse é um dos pontos mais importantes.
O termo se popularizou como chemo brain porque as alterações cognitivas foram muito associadas à quimioterapia. No entanto, hoje sabemos que o quadro é mais complexo.
Segundo a American Cancer Society, problemas de memória e concentração podem aparecer em pessoas que receberam diferentes tratamentos e até mesmo em algumas pessoas antes do início da terapia oncológica. Entre os fatores associados estão quimioterapia, cirurgia, radioterapia, imunoterapia, terapia hormonal, terapias-alvo e determinados medicamentos utilizados durante o tratamento.
Além disso, o próprio câncer e diversas situações que acompanham o tratamento podem interferir na capacidade de concentração.
Por isso, falar em alteração cognitiva relacionada ao câncer pode ser mais preciso do que atribuir tudo simplesmente à quimioterapia.
Cansaço, sono e ansiedade também interferem
Imagine tentar se concentrar depois de várias noites dormindo mal. Agora acrescente consultas, exames, preocupações, medicamentos, dor e fadiga.
É compreensível que o cérebro também sinta o impacto.
De fato, fatores como fadiga, anemia, infecções, dor, alterações do sono, mudanças hormonais, dificuldades nutricionais, estresse, ansiedade e depressão podem contribuir para as alterações cognitivas ou torná-las mais perceptíveis.
Portanto, nem sempre existe uma única causa.
É justamente por isso que conversar com a equipe de saúde é importante. Identificar e tratar fatores como anemia, dor ou problemas de sono, por exemplo, pode fazer parte do cuidado.
O chemo brain passa?
Em muitas pessoas, as alterações cognitivas melhoram ao longo do tempo. Entretanto, não existe uma duração igual para todos.
A American Cancer Society informa que, para algumas pessoas, essas mudanças duram pouco tempo, enquanto outras podem apresentar sintomas mais prolongados.
Assim, comparar sua recuperação com a de outra pessoa pode ser injusto.
O tipo de câncer, os tratamentos recebidos, a idade, outras condições de saúde e diversos fatores individuais podem influenciar essa experiência. Além disso, a ciência ainda investiga os mecanismos responsáveis pelo comprometimento cognitivo relacionado ao câncer.
O que pode ajudar no dia a dia?
Não existe uma solução única para o chemo brain. Contudo, pequenas mudanças podem diminuir a sobrecarga mental.
Use uma agenda ou o celular como memória externa. Anote consultas, compromissos e tarefas em um único lugar.
Faça uma coisa de cada vez. O cérebro pode sentir maior dificuldade quando precisa dividir a atenção entre várias atividades simultaneamente.
Crie lugares fixos para objetos importantes. Chaves, documentos, óculos e medicamentos, por exemplo, podem permanecer sempre no mesmo local.
Faça as tarefas mais exigentes quando tiver mais energia. Algumas pessoas conseguem identificar períodos do dia em que estão mais alertas.
Cuide do sono e do descanso. Além disso, converse com a equipe se estiver enfrentando insônia ou fadiga intensa.
Mantenha-se fisicamente ativo quando houver liberação médica. A atividade física é apontada como uma das estratégias que podem contribuir para a saúde cognitiva e para o controle da fadiga.
Experimente práticas de atenção e meditação. Elas podem ajudar a reduzir distrações e trazer a atenção novamente para o momento presente. A American Cancer Society também inclui a meditação entre as estratégias que podem ser utilizadas para lidar com alterações de concentração.
Finalmente, algumas pessoas podem se beneficiar de reabilitação cognitiva, especialmente quando as dificuldades interferem de maneira importante na rotina. Nesses casos, a equipe de oncologia pode orientar sobre a necessidade de avaliação especializada.
Anotar os sintomas pode ajudar
Existe outra estratégia muito simples: observe quando o problema acontece.
Por exemplo, você percebe maior dificuldade depois da medicação? Nos dias em que dorme pouco? Quando está muito cansado? Em determinado período do dia?
A American Cancer Society recomenda registrar essas situações porque isso pode ajudar tanto o próprio paciente quanto a equipe de saúde a identificar padrões.
Além disso, leve suas anotações para a consulta. Às vezes, quando chegamos diante do médico, esquecemos justamente aquilo que queríamos explicar — uma ironia bastante inconveniente quando o assunto é memória.
Quando procurar a equipe de saúde?
É importante contar à equipe de oncologia sobre alterações persistentes de memória, concentração ou raciocínio.
Mudanças intensas ou repentinas, confusão importante, desorientação ou alterações marcantes de comportamento não devem ser automaticamente atribuídas ao chemo brain. Existem outras possíveis causas que precisam ser avaliadas por profissionais de saúde.
Portanto, não tente simplesmente “aguentar” o problema porque acredita que ele faz parte do tratamento.
Quanto mais claramente você explicar quando começou, como acontece e de que maneira interfere em sua vida, mais informações a equipe terá para ajudá-lo.
Sua memória mudou, mas você continua sendo você
Talvez uma das partes mais difíceis do chemo brain seja a sensação de não se reconhecer.
Entretanto, esquecer uma palavra, precisar anotar mais coisas ou levar mais tempo para organizar pensamentos não diminui sua inteligência nem seu valor. Significa apenas que seu organismo está atravessando uma experiência complexa e que essa dimensão também merece cuidado.
No CAPO Bezerra de Menezes, o cuidado com a pessoa vai além da doença. A instituição oferece apoio gratuito e humanizado a pessoas com câncer e seus familiares, incluindo acolhimento emocional, espiritual e práticas complementares voltadas ao cuidado integral.
Se você percebeu mudanças na memória ou na concentração durante o tratamento, converse com sua equipe médica e compartilhe este artigo com alguém que também possa estar vivendo essa experiência. Informação ajuda a compreender aquilo que, muitas vezes, assusta justamente por não ter nome.
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