A fé pode ser uma fonte profunda de conforto durante o tratamento do câncer. Mas também pode vacilar. Para algumas pessoas, o diagnóstico desperta esperança e aproximação espiritual; para outras, surgem raiva, silêncio, dúvidas e até uma dolorosa sensação de falta de fé.
Perguntas como “Por que eu?”, “Onde está Deus agora?” ou “Por que minhas orações não foram atendidas?” podem aparecer mesmo em pessoas que sempre tiveram uma vida espiritual intensa. Isso não significa necessariamente que a espiritualidade acabou. Muitas vezes, significa que a pessoa está tentando encontrar sentido diante de algo que mudou sua vida de maneira inesperada.
O próprio National Cancer Institute (NCI), referência internacional em oncologia, reconhece que doenças graves como o câncer podem provocar sofrimento espiritual, dúvidas sobre crenças, sensação de abandono ou punição e até perda da fé.
É normal ter uma crise de fé no câncer?
Sim. Uma crise de fé no câncer pode acontecer e não deve ser tratada como fraqueza moral ou espiritual.
Primeiramente, o diagnóstico interrompe a sensação de segurança que costumamos ter sobre a própria vida. De repente, aparecem exames, tratamentos, incertezas e mudanças na rotina. Consequentemente, perguntas que antes pareciam distantes podem se tornar urgentes.
A pessoa pode começar a refletir sobre justiça, sofrimento, propósito, vida, morte e futuro. Por isso, a experiência do câncer não afeta somente o corpo. Ela pode alcançar também aquilo em que acreditamos e a maneira como compreendemos nossa existência.
Segundo o NCI, a espiritualidade envolve justamente questões relacionadas ao sentido da vida, propósito, paz interior, conexão e crenças pessoais. Portanto, quando uma doença grave abala essas dimensões, pode surgir sofrimento espiritual.
“Por que eu?” também é uma pergunta espiritual
Talvez poucas perguntas sejam tão humanas diante de uma doença quanto:
“Por que isso aconteceu comigo?”
Entretanto, muitas pessoas se sentem culpadas simplesmente por fazer essa pergunta. Pensam que deveriam aceitar tudo serenamente ou demonstrar confiança permanente.
Mas emoções humanas não funcionam dessa forma.
De fato, o NCI cita especificamente a pergunta “Por que eu?” como uma das manifestações que podem aparecer no sofrimento espiritual relacionado ao câncer.
Além disso, procurar uma explicação para o sofrimento faz parte da tentativa humana de organizar aquilo que parece incompreensível. O problema começa quando essa busca se transforma em culpa.
A pessoa pode pensar: “Será que fiz alguma coisa para merecer isso?” ou “Será que fiquei doente porque minha fé não era suficiente?”.
É importante deixar algo muito claro: o câncer não deve ser interpretado como prova de falta de fé, castigo espiritual ou falha pessoal. A espiritualidade pode oferecer apoio e significado, mas não deve servir para culpar quem adoeceu.
Posso sentir raiva de Deus?
Para quem acredita em Deus, talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis de admitir.
Ainda assim, algumas pessoas sentem raiva. Outras sentem abandono. Há também quem continue acreditando, mas simplesmente não consiga compreender o silêncio de Deus naquele momento.
Sentir raiva não é o mesmo que deixar de acreditar.
Às vezes, inclusive, a própria revolta revela que aquela relação espiritual continua sendo importante. Afinal, geralmente nos revoltamos justamente diante daquilo que possui significado para nós.
Por outro lado, existem pessoas que não se identificam com uma religião ou com a ideia de Deus. Nesse caso, a crise pode assumir outra forma: “Qual é o sentido disso?”, “O que realmente importa para mim?” ou “Como quero viver daqui para frente?”.
Assim, espiritualidade e religião não precisam significar exatamente a mesma coisa. O NCI diferencia religião de espiritualidade e explica que a espiritualidade também pode estar relacionada a propósito, valores, conexão, paz e significado da vida.
Fé não significa estar forte o tempo inteiro
Existe uma imagem quase impossível de sustentar: a pessoa com câncer que permanece positiva, confiante, agradecida e esperançosa todos os dias.
A vida real é diferente.
Há dias de coragem e dias de medo. Há momentos de confiança e outros de dúvida. Da mesma forma, pode haver dias em que a oração conforta e outros em que nenhuma palavra aparece.
Isso não torna a experiência espiritual menos legítima.
Especialmente durante um tratamento longo, talvez seja mais saudável abandonar a obrigação de parecer espiritualmente forte. Em outras palavras, a espiritualidade também pode incluir perguntas sem respostas, silêncio e vulnerabilidade.
O que fazer quando a fé parece distante?
Não existe uma receita única para reconstruir a fé ou encontrar sentido. Entretanto, algumas atitudes podem ajudar a atravessar esse período com maior acolhimento:
- Permita-se perguntar. Não é necessário esconder dúvidas ou sentimentos difíceis.
- Converse com alguém de confiança. Pode ser um familiar, psicólogo, profissional da saúde, líder religioso ou pessoa preparada para oferecer apoio espiritual.
- Não transforme doença em culpa. Evite interpretações que relacionem câncer a castigo, merecimento ou insuficiência espiritual.
- Procure aquilo que ainda produz sentido. Pode ser oração, meditação, música, natureza, leitura, silêncio, convivência ou simplesmente estar perto de quem você ama.
- Respeite seu próprio tempo. Talvez algumas respostas nunca venham. Ainda assim, é possível construir significado enquanto se atravessa a experiência.
- Fale sobre espiritualidade com a equipe de saúde se isso for importante para você. O cuidado integral pode considerar também as necessidades emocionais e espirituais do paciente.
A American Cancer Society, inclusive, orienta pacientes a conversarem com a equipe de saúde quando questões de propósito, espiritualidade ou crenças estiverem causando sofrimento e destaca a possibilidade de encaminhamento para apoio especializado.
Espiritualidade também pode ser presença
Às vezes procuramos respostas extraordinárias quando o que conseguimos encontrar são pequenos pontos de apoio.
Uma conversa. Uma mão segurando outra. Uma tarde tranquila. Uma oração curta. Um momento de silêncio.
Talvez a fé, em determinados períodos, não apareça como certeza. Talvez apareça apenas como a decisão de continuar caminhando mesmo sem compreender tudo.
Por isso, espiritualidade não precisa significar negar o medo nem afirmar que tudo ficará bem. Pelo contrário, ela pode ajudar a pessoa a permanecer conectada àquilo que considera essencial enquanto enfrenta uma realidade difícil.
Pesquisas reunidas pelo NCI mostram que crenças e práticas espirituais são importantes para muitos pacientes no enfrentamento do câncer, embora a maneira como cada pessoa vive essa dimensão seja profundamente individual.
Não existe fé perfeita
Durante o câncer, algumas pessoas fortalecem suas crenças. Outras as questionam profundamente. Há quem mude de religião, quem reencontre uma antiga espiritualidade e quem descubra sentido fora de qualquer tradição religiosa.
Nenhuma dessas experiências deve ser julgada.
Portanto, se hoje você sente que sua fé está diferente, não precisa fingir que não está. Se existe raiva, reconheça a raiva. Se existem perguntas, permita que elas existam. E, se conseguir encontrar esperança novamente, acolha-a sem exigir que ela seja permanente.
A fé humana nem sempre é uma linha reta. Às vezes ela vacila, pergunta, silencia e procura.
E talvez cuidar da dimensão espiritual durante o câncer comece justamente aí: não na obrigação de possuir todas as respostas, mas na possibilidade de encontrar acolhimento enquanto as perguntas permanecem.
No CAPO Bezerra de Menezes, pessoas com câncer e seus familiares podem encontrar gratuitamente espaços de acolhimento, apoio emocional e práticas voltadas ao cuidado integral e à espiritualidade. Se você está atravessando esse momento, não precisa guardar todas essas perguntas sozinho. Procure apoio e permita-se ser cuidado também.
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